sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Definindo nossa empreitada...



Uma vida em poucas (?) linhas...

Nasci em uma cidade pequena e pouco conhecida do estado e vim para Campinas com um ano de idade, juntamente com meus pais e seus sonhos de uma vida melhor, que foram (e são) profundamente marcantes em toda a minha educação. Apesar das condições iniciais serem reduzidas, sei que fizeram o melhor por mim e tive tudo o que precisei para ser feliz. Desde que me entendo por gente, sempre tive contato com a leitura e a escrita e, para adentrar nesse mundo fascinante, aos 5 anos passei a implorar que me alfabetizassem, mesmo sem conhecer esse termo: persegui tanto uma tia que ela passou a me ensinar com uma cartilha que eu adorava, o que é curioso tendo em vista as ressalvas que passei a ter posteriormente quanto a esse método. Aos 6 anos fui para a pré-escola sabendo ler e escrever fluentemente, o que logo foi percebido por todos, fazendo que eu ganhasse o estigma de “garota precoce”, “metida”, “queridinha da professora”, que esteve comigo até o fim do Ensino Fundamental e fez a minha vida escolar mais triste. Tentava compensar a solidão trazida pela escassez de amigos com mergulhos cada vez mais profundos em histórias – os livros eram meus melhores amigos e companheiros, e aos 10 anos já ganhara o apelido de “ratinha de biblioteca”, que aceitei com certo orgulho. A partir do Ensino Médio resolvi começar de novo em uma nova escola, onde passei a ser mais aceita, me abri mais para as pessoas e fiz verdadeiros amigos que mantenho até hoje. Foi lá que comecei a pensar em futuras profissões e tive um rápido namorico com a área de administração, fazendo um curso técnico de administração de empresas, só para depois descobrir que não era aquilo que eu queria, de maneira alguma, para a minha vida. Não havia como negar, eu tinha que me envolver com algo relacionado com livros, escrita, quem sabe educação, crianças... E assim passei a pensar em cursos como história, letras, lingüística, pedagogia.. Pedagogia? Fui desencorajada por algumas pessoas quando passei a falar sobre a minha opção em cursar tal curso, o que estranhamente fortaleceu minha decisão e fez com que eu passasse a falar, quando perguntado, que o porquê de minha escolha era desconhecido até por mim, que fora fruto de uma abdução, e que eu simplesmente tinha que fazer isso. Prestei vestibular em apenas uma universidade, só pra ver como era, e fiquei bastante surpresa ao passar, principalmente por considerar meu aprendizado em exatas insuficiente. E foi com grande alegria que ao conversar com uma veterana, fui informada de que teria que ler muito no curso. E realmente já tive, o que por si só já se constituiu em minha grande motivação no curso – ler, escrever, aprender coisas novas... Mas era suficiente? Bom, descobri que não era quando pisei meus pés pela primeira vez em uma sala de aula do 1º ano, no ano de 2007, como estagiária. Foi ali que me encontrei com aquilo que procurava e não sabia o que era, com o que se constituiria no grande desafio de minha vida até o presente momento: a sala de aula e a escola. Foi nesse momento que entendi que essa poderia ser a maneira de não ser só mais uma, de ser sempre lembrada, de fazer algo de verdade, quem sabe de mudar o mundo? Pode parecer ideológico ou sonhador demais da minha parte, mas sem sonhos eu acredito que não há vida que valha a pena ser vivida. E assim fui me construindo enquanto pessoa, enquanto futura educadora, tomando ciência cada vez mais de onde estava me metendo e gostando, apesar de tudo. Hoje sinto na pele o que Paulo Freire disse: “ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro da tarde. Ninguém nasce educador ou é marcado para ser educador. A gente se forma como educador permanente, na prática e na reflexão sobre a prática”. Vou fazendo meus próprios caminhos, caminhos esses que me levaram a me envolver com a formação de professores, com a escrita como forma de reflexão, com a importância da leitura e dos trabalhos que podem ser desenvolvidos nessa área... Me levaram também a fazer esse blog com a Paty, motivada principalmente pela velha vontade de escrever, de compartilhar idéias, de ler e de ser lida.

Escrever é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.

- Clarice Lispector


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

E assim me começo...

Nasci, cresci, vivi. Aprendi, aos trancos e barrancos, o que me fazia bem, o que não me apetecia. Tive uma infância recheada de livros, família e algumas expectativas a cumprir. As relações de aceitação no final do ensino fundamental me fizeram acordar indisposta vários dias para ir a escola, não sabia o que fazer. Sobrevivi. Continuei minha história e a levei para o colegial. O ensino conteudista me transtornava, não havia sentido, ligações, em nada. Mas queria acreditar que um dia tudo aquilo me serviria para alguma coisa. Preencher as inscrições para os vestibulares foi um momento difícil. Qual carreira escolher? Por que caminhos seguir? E se eu não gostasse? Poderia desistir?Acabei optando por três cursos distintos: pedagogia, psicologia e ecologia. Achei que as notas no vestibular se encaminhariam de fazer o processo seletivo de qual faculdade iniciar. Quanto engano. Vi meu nome escrito na lista de aprovados das três instituições. Era eu quem deveria decidir. Corri atrás de profissionais das áreas pretendidas. Conversei, perguntei, refleti. E lá fui eu receber o trote das veteranas do curso de pedagogia da Unicamp. Por muito tempo me questionei se havia feito a escolha certa. Se aquelas aulas iriam melhorar ou se estavam fadadas a continuar daquela forma maçante até o final da graduação. Enquanto me perguntava, conheci, desconheci e redescobri pessoas, amigos, relações, professores. Me afeiçoei, cativei, busquei. E mesmo naquele caminho de incertezas, sabia que era feliz. O que faltava realmente era uma identificação maior com o curso. Algo que me ligasse, alguma coisa que reunisse toda aquela teoria e a tornasse una. E foi na escola que me achei. Parecia sonho... mas acredito que tudo aquilo foi real. As marcas, as cartas, as flores, as brigas, discussões, toda a minha falta de paciência... foram de verdade. Um ano de estágio em uma sala de 1º ano da rede municipal de ensino... Muitas experiências, aprendizados e uma vontade crescente de aprender e ensinar. Vi que podia ser importante, exemplo, modelo, caminho, instrumento... para uma criança, duas, uma classe. Entendi também que não conseguiria dar atenção a todas elas. Que havia ciúmes, intrigas, uma necessidade gritante de desenvolver autonomia e respeito. Descobri na teoria e na prática a função de narrar, a importância de se contar, de ouvir. Queria passar muita coisa que vivi para aqueles alunos. Minhas paixões por livros, escrita e relações eram cada vez mais explícitas em meu diálogo... E enfim me vejo com um blog em parceria com a Dani, um projeto de TCC, um orientador, mil idéias e alguns caminhos a trilhar...
"esse é só o começo do fim de nossas vidas"
- Los Hermanos

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade